A caminho de casa, na ultima sexta-feira, bateram em meu carro em um cruzamento. Além de avançar no farol vermelho, estar na contra-mão, colidir fortemente do meu lado, simplesmente o condutor do outro veículo, de frente 'arregaçada', radiador esfumaçando, fugiu cantando pneus e de quebra, atingiu a traseira do meu carro, de fora a fora...
Numa atitude totalmente impensada, larguei o carro no cruzamento e como Forrest Gump, corri feito louca, de salto alto, pela avenida, 'perseguindo' o sujeito. Alguns metros a frente, quando a fase 'dei por mim' chegou ao cérebro, retornei desolada, trêmula e ofegante para o carro. Entrei nele, respirei fundo, debrucei sobre o volante e soltei o maior pranto que pude na hora. Voltei a cabeça ao encosto do banco, olhei a minha volta e lá estavam todos os carros enfileirados, estranhamente esperando pacientes a minha retirada do local para deixá-los seguir. Engatei a primeira, subi alguns metros da minha rua (sim!...foi no cruzamento da rua de minha propria casa!) e encostei.
Apareceu uma senhora, de uns 70 anos, em minha janela e me entregou uma placa de carro dizendo "filha, deixou cair". Agradeci, jogando a placa no assoalho do passageiro. Em seguida e também 'do nada', uma mulher apareceu com um copo d'água e um jogo de frases bem intensionadas de consolo. Um motoqueiro encostou, desceu da moto, tirou o capacete e ficou simplesmente olhando, sem dizer absolutamente nada, mas de uma forma esquisita, senti um certo conforto nisso. Um outro rapaz do posto de gasolina da esquina, subiu até o carro e foi despejando uma sequência de palavrões para descrever a atitude do 'cara' (se tem uma forma de te confortar - e que funciona - nessas horas de estresse extremo, desolamento e choro desmedido, é alguém desconhecido despejar tamanho repertório mal-criado e em sua defesa!). Minutos depois, uma menina, de uns 12 anos, apareceu na beira da minha porta e disse 'Tia, eu anotei a placa!' E começou a ditar.
Aquela cena de tantos personagens, arrancou de mim, mais forças ainda para me acabar em mais chororôs, emocionada com toda aquela comoção. Só conseguia agradecer em meio a desafinos, soluços e funga-fungas...
No dia seguinte, pela manhã, meu interfone tocou. Era a moradora do 13 (e quem disse que dá azar hein?!) - que nem sei quem é (bem, devo já ter dividido algumas subidas e descidas de elevador, acompanhados de um cumprimento padrão ou informações meteorológicas tipo 'vai chover hj né', mas de certo, não passou disso). Ela interfonou pra dizer que presenciou todo o acidente, que viu meu crachá pendurado no retrovisor e por isso sabia de onde era, comentou sua indignação diante da atitude covarde do sujeito e se dispôs voluntariamente como testemunha, se necessário...
Diante da atitude irresponsável, egoísta e sim, desumana deste motorista, tive a oportunidade de vivenciar uma série de atitudes totalmente opostas. Pessoas igualmente desconhecidas, como este 'ser inconsequente' também me era, fizeram o que estava a seu alcance ajudar - da placa do carro que caiu ao simples copo d'agua.
Passado o nervoso, agradecido a Deus por absolutamente nada ter acontecido comigo fisicamente, passei o final de semana refletindo tão e somente nessas pessoas de bem, que solidariamente dispuseram de seu tempo para acolher alguém que nem conheciam. E entendi que tudo o mais que aconteceu nessa sexta-feira, foi apenas "um meio" para renovar a minha crença sobre o exercício do amor ao próximo: fazer o bem sem olhar a quem; que confesso, andava bem abalada aqui dentro. Andava!
Quanto ao fato em sí, fiz a ocorrência convencional sobre a colisão para os trâmites necessários de minha seguradora. E uma segunda ocorrência, de natureza 'Fuga do local do acidente' (Art.305 da C.T.B), em que entreguei para a polícia, a placa do carro que aquela senhora de 70 anos me disse ter 'deixado cair'. Simplesmente, era a placa do condutor infrator, servindo de 'evidência física' para intimar o proprietário do veículo a comparecer a delegacia para prestação de contas...
Art. 305 (Código Transito Brasileiro) - Afastar-se o condutor do veículo do local do acidente, para fugir à responsabilidade penal ou civil que lhe possa ser atribuída: Penas - detenção, de seis meses a um ano, ou multa.
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